top of page

PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: CÁSSIO ZANATTA




SOBRE O AUTOR


Cássio Zanatta nasceu em São José do Rio Pardo (SP), o que explica muita coisa. Tem três livros de crônicas publicados: A Menor Importância, O Espantoso Nisso Tudo e O Máximo Que Eu Consegui, todos pela Editora Realejo.



A CRÔNICA SEMIFINALISTA


1973


     Será que ainda existe sua casa? Aquela, que era branca, mas que a areia, com inveja da espuma, com o tempo foi tingindo da sua cor. Tinha uma rede de pesca e um berimbau pendurados na parede, telhas que vazavam o sol e uma varanda com redes para se tocar violão e conversar.

     Aquele seu shortinho rosa, que me disse pela primeira vez como as meninas eram bonitas, você o guardou? Pouco provável. Mas eu guardei.

     Você ainda usa franja? E jabuticaba nos olhos? Faz covinhas, quando sorri? Suas pernas continuam a ser de ouro no verão?

     Eu era muito envergonhado (como assim, era?). Não conseguia dizer, guardava. Mas você percebeu, não percebeu? As meninas já vêm de fábrica com esses radares. 

     “Maria era uma boa moça, da turma lá do Gantois...” Você tocava afoxé. Aquelas contas brancas que ritmavam na casca do coco seco ornavam com tudo. Mas, sendo sincero, seu umbigo de fora deixava as coisas bem confusas.

     Dentro da água, você tinha medo de que um siri lhe beliscasse o pé. Eu dizia que era bobagem. Dentro de casa, seu medo era das lagartixas. Bom que as mulheres têm esses pavores para a gente ter alguma serventia. Mas a vontade mesmo era pegar você no colo, como nos filmes que só tinham cor no cinema, na TV eram preto e branco, o que só aumentava as sombras e o mistério.

     Você gostava de peixe, mas não do cheiro de peixe. Uma vez, na praia, tinha chegado um barco carregado de pesca e, quando chegamos perto para ver, você saiu correndo. De medo, de nojo? Era para eu ter ido atrás?

     Ia com meu tio comer ostras fresquinhas com limão. Ele na caipirinha, eu menino só na Coca-Cola. Às vezes tinha camarão no espeto. Tenho bem guardado o cheiro da ostra e do cachimbo do rio Renato.

     O barulho da onda que quebra fica repetindo, ecoando, insistindo que é uma coisa.

     Um irmão percebeu meu avoado e anunciou: o Cássio tá gostando! Eu fiquei bravo e dei um murro nele. Ou foi um soco, nunca soube direito quem é quem. E levei de volta outros tantos, que ele era maior do que eu. Outra vez machuquei feio o dedo num tronco enterrado na areia, inflamou e coisa e tal. E tudo doía menos que a beleza.

     Você também era do Interior, não era? Tinha um sotaque mais carregado que o da minha terra. Era bem engraçado, feio até, mais cantado e com erres arrastados na ida e na volta. Sua camiseta cheirava a naftalina, misturada à maresia. E às vezes, ao limão que eu pingava no camarão que ia comer com meu tio. Sua mãe devia encher as gavetas de bolinhas que impregnavam sua roupa. Vai ver, foi esse o veneno.

     Mas diga, afinal: encontrou alguém? Casou? É feliz como merecia? Tem uma filha tão linda como você menina? Também tem fruta nos olhos, covas no sorriso e maresia no jeito? Toca afoxé? E quando cochila na rede, fica alguém espiando, para depois sentar na areia e comparar com as estrelas?

     E como era, meu Deus, como era mesmo o seu nome? A única coisa que eu esqueci, do resto me lembro de tudo. E se não lembro, sonho e invento.


Comments


Logo da Casa Brasileira de Livros

Endereço comercial:
Rua Dr. João Pessoa, 605
Bairro São João — CEP: 96640-000
Rio Pardo (RS), Brasil

CNPJ: 37.575.885/0001-67

+55 (51) 9 9559-7518

Forma de pagamento: pix e cartão de crédito

Envios em até 2 dias úteis após confirmação do pagamento

Política de troca, devolução e reembolso: até 07 dias corridos

  • Facebook
  • Instagram
  • Youtube
bottom of page